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Vrijheid


Escrevo minha coluna diretamente de Amsterdã, onde vim participar de uma concorrência internacional – por mais que os gringos sejam ótimos em planejamento e estratégia, sempre chamam nós - “latinos”- quando a criação precisa fazer bonito. E toda vez que viajo para trabalhar em algum país da Europa, me impressiona como conseguimos ser, ao mesmo tempo, tão iguais e tão diferentes.

Por mais que os cargos, funções, computadores, post-its, flipcharts e canequinhas coloridas de café sejam parecidos, o modo deles de agir e pensar é totalmente outro. Como se embalagens semelhantes pudessem ter conteúdos completamente diferentes – assim como algumas das nossas pílulas anticoncepcionais. É o que muitos chamam de ‘mundo glocalizado’ (sic), em que padrões internacionais onipresentes começam, aos poucos, a serem remoldados de acordo com as realidades de cada país – em outras palavras, esfiha de queijo com pizza de chocolate.

Confesso que me agrada bastante a idéia de ver similaridades globais convivendo harmonicamente com diferenças locais – fazendo os famosos ‘mash-ups’, outra palavra bastante em alta ultimamente. Assim como me incomoda um pouco ver orientais jogando fora sua cultura milenar para imitar o Frank Sinatra em um karaokê. Aqui na Holanda essa mistura é muito fácil de ser reconhecida pelos olhos de um estrangeiro – já que a cidade, por si só, é uma mistureba generalizada. Você vê velhinhas passeando pelas ruas, com cestas cheias de flores, em frente a verdadeiras vitrines humanas, com prostitutas cheias de silicone. Surreal.

Em Amsterdã, cada um pode ser o que quiser, e o convívio mútuo entre raças, credos e cruz-credos é invejável. Por outro lado, hoje em dia quase só se fala inglês nas ruas – prova de que a globalização continua agindo fortemente – e o governo, além de evitar que o mar invada o país, já começa a tomar providências para que a língua daqui não afunde junto.

Mas o assunto que mais me chamou a atenção tem muito a ver com a nova cultura digital: a mobilidade. De que adianta ter um laptop com wi-fi, um celular com Bluetooth e um carro com GPS se o trânsito só piora a cada dia? Por mais que a tecnologia evolua para que tenhamos acesso móvel de qualquer lugar, o caos das grandes cidades brasileiras faz com que fiquemos imóveis em praticamente todos eles. Aí viramos eunucos do nosso próprio paraíso, usando o GPS para ver nossa bolinha sempre parada no mesmo lugar.

Os holandeses resolveram esse problema com um instrumento analógico que os chineses usam há milhares de anos – muito antes do tatataravô do Frank Sinatra nascer – a bicicleta. De milionário a mendigo, de freira a drogado, de punk a patricinha indo pra balada, todo mundo aqui só anda de bike. Impressionante. E as pessoas já estão tão acostumadas a viver sobre duas rodas que fazem de tudo com as magrelas em movimento: comem sanduíches, lêem jornal, escrevem SMS e até falam com o celular apoiado em um ombro enquanto seguram o guarda-chuva na outra mão – juro que vi essa cena.

Tanto que em Amsterdã é muito difícil encontrar bicicletas no nosso estilo, com os freios na frente. Aqui só se freia à moda antiga, girando o pedal para trás. Afinal, estamos falando de um povo 100% móvel, que precisa ter as mãos livres para fazer outras coisas enquanto se locomove. É nesse ponto que eu queria chegar: enquanto aqui eles já são laptops, se movendo de um lado para o outro conectados com o mundo inteiro, nós aí ainda somos desktops, presos em caixas com quatro rodas e limitados a conexões por cabo. Eles, sim, podem fazer o que quiserem na hora em que bem desejarem. Nós não.

Antes que eu me esqueça: o título dessa matéria, em holandês, significa ‘liberdade’ – algo que aqui é muito mais visível do que aí. Mas cuidado: ‘vrijen’, que é bem parecido, significa ‘transar’ – coincidências que só acontecem em um país cuja capital tem como símbolo oficial o XXX.

Viva a liberdade de ir e vir. Em todos os sentidos.

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