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Acabou o atalho


Escrevo minha coluna desse mês em pleno avião, rumo à cobiçada Riviera Francesa, indo para mais um Festival de Cannes. A expectativa é a mesma de sempre: ver trabalhos inovadores e trocar experiências com gente do mundo todo para coletar novas referências. E, se possível, ter o prazer de preencher na volta aquele item no papelzinho branco da alfândega: “Está portando algum animal?” Sim, um leão.

Afinal, é nossa única chance de vingar séculos de exploração européia: agora nós é que vamos até a terra deles em busca de ouro. Mas a cada ano que passa, essa possibilidade vai ficando mais remota, e já há algum tempo os leões brasileiros começaram a entrar em extinção – se a situação continuar assim, em breve precisaremos criar uma nova divisão do IBAMA para preservar o “egossistema”.

Categorias que antes eram garantia de prêmios ficaram muito mais concorridas, e países sem nenhuma tradição em publicidade – como Bélgica, Suécia e Nova Zelândia – estão deixando vazias várias estantes nas agências brasileiras. Sem contar nossos hermanos argentinos que, de uma hora pra outra, viraram a grande atração na categoria filmes – prova de que nosso problema é muito mais falta de idéia do que de verba.

O melhor exemplo disso é a categoria cyber – que acompanho de perto desde 1999. Antes era igual futebol de areia: o Brasil ganhava fácil todos os campeonatos mundiais. Era uma verdadeira festa para nossas agências, pois bastava criar um gif divertidinho para beliscar um bronzezinho – e colocar uma peça no shortlist era tão difícil quanto golear as Ilhas Faröer. Aproveitávamos que Inglaterra e EUA ainda não tinham tanto interesse no mundo online e comíamos os prêmios pelas bordas – o que ajudou o Brasil a trazer de Cannes alguns títulos de “agência do ano” naquela época.

Hoje a história mudou. Ganhar um leão em cyber não é mais tão fácil assim – e qualquer shortlist esse ano deve ser tão comemorado quanto um bronze nos anteriores. Afinal, não adianta mais ter “sacadinhas interativas” para entreter os jurados e conseguir novas decorações para o hall de entrada das agências. Agora, além de muito boas, as idéias também precisam ser muito bem produzidas – caso contrário, farão tanto sucesso quanto as velhinhas de topless nas praias ao redor do Palais.

Muita gente nem imagina, mas hoje as peças de internet passam pelas mãos de uma infinidade de profissionais. Além da dupla que cria, elas geralmente têm a participação de motion designers, programadores e, dependendo do caso, arquitetos de informação e especialistas em usabilidade. Sem falar as que usam vídeo – que hoje demandam a mesma equipe de um comercial de TV – e as inteiras modeladas em 3D, o que fez algumas agências até criarem departamentos internos especializados em computação gráfica. Ou seja, não duvido que os estagiários nem saibam mais como se anima um gif.

Sites como o Nike+, que ganhou o Grand Prix no ano passado, precisaram da ajuda de uma equipe especializada em desenvolver softwares – uma realidade ainda bastante distante da nossa, infelizmente. Por isso, que o Brasil sempre ganhou muito mais prêmios em banners, pois necessitam de uma produção bem menos complexa. Só que assim, aos poucos, vamos perdendo terreno para países que levam a internet mais a sério do que nós – e que não acham que os departamentos online das agências tradicionais só precisam trabalhar na época de Cannes.

Se continuarmos enxergando a web apenas como um atalho, jamais encontraremos o caminho. E continuaremos perdendo nossos melhores profissionais para agências de fora, atraídos por uma estrutura capaz não só de ganhar um leão por ano, mas de matar vários por dia.

Mas em breve a ficha (de inscrição) cai. Aí, quem sabe, a famosa “criatividade brasileira em internet” possa ser usada para impactar muito mais pessoas do que apenas uma dúzia de jurados.

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